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Maria Helena: força da mulher no sertão de Caridade

Quinta, 22 Maio 2014 15:49
Maria Helena: força da mulher no sertão de Caridade

A história da agricultora Maria Helena. Com 10 filhos, cuida praticamente sozinha do roçado e da pequena criação de animais em seu terreno de 4 hectares no sertão de Caridade.

Por Evelyn Ferreira*

Maria Helena Sampaio, agricultora de Humaitá, comunidade do município de Caridade (95km de Fortaleza), vê sua terra render frutos variados e diz: “aqui, tudo o que plantar, dá. Basta ter água”. A terra de Maria Helena lhe dá milho, feijão, jerimum, acerola, ata, mamão, melancia etc. Tudo isso em quatro hectares. A produção é quase toda voltada para consumo da própria família. Vez ou outra dois dos filhos da agricultora vão vender atas para apurar um pouco mais de dinheiro.

Desde os 7 anos, Maria Helena trabalha como agricultora. Começou com os pais dela, na comunidade de Carneiro, também em Caridade. E foi uma escolha. Quando criança, os pais lhe mostraram duas opções: cuidar da casa ou cuidar do roçado. Para escapar dos olhares severos da mãe, que sempre encontrava algo que não havia sido feito dentro de casa, optou pelo roçado. “O que fazia lá (no roçado), estava feito”, diz Maria.

Estudou até o quarto ano e aprendeu a ler e a escrever e, também, a tabuada. “Era até onde a professora sabia”, conta. Com recursos limitados, a escola que Maria Helena frequentava funcionava numa casa da comunidade. O pai não gostava muito da ideia de ver a filha estudando. Achava que mulher na escola só servia para aprender a escrever bilhetes para namorados. Mas a mãe de Maria Helena lutou e deixou que os filhos frequentassem a escola.

Hoje, a educação é um bem que Maria Helena valoriza. Tem dez filhos e todos frequentam ou frequentaram a escola. Cinco desses filhos, os mais velhos, moram em Fortaleza e os outros cinco, com ela. Três meninos e duas meninas. O mais novo, João Gilberto, que leva o nome do pai, tem 11 anos e nasceu com Síndrome de Down. Exige atenção o tempo todo. Não se pode sair e deixá-lo só em casa. Ou descuidar-se e deixar o portão aberto. Maria Helena lembra que já passou por situações de sufoco, como a vez em que o menino saiu sem que ninguém visse e foi encontrado próximo à rodovia CE 020, a cerca de 1km de distância da casa.

As tarefas domésticas são divididas entre os filhos, mas apenas os meninos vão ao roçado, com exceção do pequeno João Gilberto. Mesmo com dez filhos, o futuro do roçado ainda não é certo. Por enquanto, apenas um dos filhos homens de Maria Helena foi “escalado” para a missão de cuidar da terra da família. As meninas que moram com Maria Helena não pensam em viver da agricultura. Uma delas, Aline (13 anos), diz querer ser policial ou veterinária. A outra, Amanda (15 anos), conta que quer ser arquiteta e já expõe talento pintando as paredes do quarto com imagens que lhe vem à cabeça: peixes no rio, pássaros no lago, uma jangada numa praia.  Além do canto. Talento herdado do pai, que fora seresteiro.

O pai, João Gilberto, casou-se com Maria Helena aos 36 anos e após o nascimento dos quatro primeiros filhos. O casal ouviu falar que “não era bom” viver junto sem casar e resolveu pegar as bênçãos católicas. A roupa branca e o enfeite de cabelo da noiva foram emprestados por conhecidas. No mesmo dia, aproveitando a ocasião, o casal também batizou os filhos.

João e Maria vivem, desde que se uniram, de uma forma, talvez, diferente para quem cresceu em cidade grande. Ele tem casa alugada na capital cearense e passa a semana trabalhando como encarregado de bombeiro hidráulico. E ela vive em Caridade cuidando dos filhos, da casa da família e do roçado. Os dois só se veem aos finais de semana. Foi assim desde o começo e vai continuar sendo enquanto ele trabalhe longe.

Na propriedade da família, em Caridade, também ficam aos cuidados de Maria Helena os animais de criação. Galinha, bode, burro, peru. Sem contar com os animais de estimação: gatos e cachorros. Dos cachorros, Zé Titute tem destaque. Ele acompanha Maria Helena por todos os lugares. Até no roçado. “Eu não gosto muito que ele vá ao roçado porque ele destrói os pés de feijão”, diz Maria Helena. Mas, ainda assim, a agricultora deixa que Zé Titute a siga.

E, para que tudo isso tenha vida, é preciso mais que dedicação da agricultora. Água é fundamental. Após a chegada da tecnologia de barragem subterrânea, trazida pelo Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), Maria Helena não precisou mais buscar por água em outras fontes. Nem pagar por ela. A plantação no roçado já responde bem à implementação chegada em dezembro de 2013. A plantação de milho, por exemplo, feita em janeiro já está pronta para ser colhida em abril. Sem uso de qualquer produto químico. E Maria Helena se prepara para o próximo ciclo com a certeza de que terá alimento para a família porque a água de plantar está garantida.

A vida de Maria Helena tem duas marcas que ela considera que sejam vitórias: a superação da tuberculose e a convivência com a escassez de água. A tuberculose, ela contraiu aos 38 anos, depois de passar quase 3 décadas usando fumo de rolo. Adoeceu e esteve perto da morte, fez promessa de que, se vivesse, largaria o vício. Recuperada, ela nunca mais voltou a fumar e orienta os filhos para que fiquem longe do fumo.

A outra vitória é a convivência com a escassez de água. Ainda criança, na comunidade de Carneiro, Maria Helena viu sua família sofrer com a falta de água para produzir e para beber. Ela lembra que já chegou a passar uma madrugada inteira acordada para encher dois recipientes com a água para levar para casa. Hoje, Maria Helena tem água até para distribuir de vez em quando. Ela aproveita bem quando a chuva chega. Armazena em potes, barris, cisterna, barragem. E se orgulha do resultado. Às vezes os vizinhos se queixam de a água ter acabado antes do próximo inverno. Mas isso não acontece na casa de Maria Helena. Ela utiliza os recursos com muita inteligência: a “água boa”, como ela chama, fica somente para beber e para uso na cozinha e a água que precisa de mais tratamento, para as outras partes da casa e para a produção. Maria Helena diz acreditar que seja isso que faça a diferença entre ela e seus vizinhos. A forma de aproveitar os recursos é que garante água na casa da agricultora mesmo nos períodos de estiagem.

*Comunicadora popular do Esplar / ASA

Este texto foi produzido para a publicação "O Candeeiro", nº2004, de maio de 2014

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