Cinco caminhos para fortalecer a agricultura familiar no Semiárido cearense

24/07/2026 18:33:15
Cinco caminhos para fortalecer a agricultura familiar no Semiárido cearense

Fortalecer a agricultura familiar no Semiárido é reconhecer que ela é o futuro.

 


O Ceará tinha, segundo o Censo Demográfico de 2022, 8.794.957 habitantes. Desse total, 6.762.118 pessoas, correspondentes a 76,89%, residiam em áreas urbanas. Outras 2.032.839, ou 23,11%, viviam em áreas rurais. Isso significa que mais de três quartos da população cearense vivem nas cidades, mas 100% dependem do trabalho de quem produz alimentos. IBGE/SIDRA e IPECE.

É preciso fazer outra distinção: morar numa área rural não significa necessariamente trabalhar na produção agropecuária. No campo também vivem crianças, pessoas idosas e trabalhadoras e trabalhadores de diferentes atividades. O Censo Agropecuário de 2017 identificou 686.473 pessoas ocupadas nos estabelecimentos da agricultura familiar no Ceará. Elas representavam 73,9% de toda a força de trabalho ocupada nos estabelecimentos agropecuários do estado. IPECE, com dados do Censo Agropecuário do IBGE.

Os dois levantamentos têm anos e universos diferentes e, por isso, não podem ser comparados como se formassem uma mesma base estatística. Mas ajudam a enxergar uma realidade decisiva: uma parcela relativamente pequena da população realiza um trabalho indispensável à vida de todas as pessoas.

Campo e cidade precisam, portanto, estar na mesma trincheira do fortalecimento da agricultura familiar. Quando a produção local enfraquece, aumenta a dependência de cadeias longas, o alimento fica mais caro e o impacto recai com maior severidade sobre as famílias em situação de vulnerabilidade econômica.

Durante muito tempo, especialmente antes da redemocratização do Brasil, o Semiárido e sua população foram tratados por meio de arquétipos, preconceitos e ranços conservadores. Predominava uma leitura baseada na pobreza, no atraso e na escassez, que alimentava políticas de “combate à seca”, muitas vezes marcadas pelo assistencialismo e pela concentração dos recursos.

A passagem do combate à seca para a convivência com o Semiárido representa uma mudança política, metodológica e civilizatória. Significa compreender que a seca é uma característica climática da região, mas a fome, a pobreza e a ausência de oportunidades não são determinações da natureza. São consequências das desigualdades e das escolhas políticas.


1. Comprar de quem produz e fortalecer os mercados locais

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Comprar alimentos da agricultura familiar é um ato político, econômico e territorial. É reconhecer quem efetivamente trabalha para que o alimento chegue à mesa da população e decidir que parte da renda gerada pelo consumo permaneça nas comunidades e nos municípios.

Fortalecer feiras livres e agroecológicas, mercados solidários, venda direta e compras públicas aproxima quem produz de quem consome, reduz a presença de atravessadores e amplia a remuneração das famílias. Também significa valorizar os alimentos locais e compreender sua sazonalidade. A agricultura de sequeiro acompanha o tempo das chuvas, os ciclos da natureza e as características de cada território.

A população urbana tem papel decisivo nesse processo. Suas escolhas de consumo podem fortalecer a economia territorial, a soberania e a segurança alimentar e nutricional e a permanência digna das famílias no campo.


2. Cuidar da água, do solo, da Caatinga, das sementes e dos conhecimentos

  

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Fortalecer a agricultura de sequeiro não significa tentar transformá-la numa agricultura irrigada e dependente de grandes estruturas. Significa ampliar sua capacidade de produzir, adaptar-se e atravessar períodos de irregularidade climática.

Isso exige cisternas de produção, conservação e cobertura do solo, reúso da água, barragens subterrâneas, sistemas agroflorestais, manejo sustentável e recuperação de áreas degradadas. Exige também proteger as sementes crioulas e nativas, apoiando guardiãs, guardiões e Casas de Sementes. As sementes carregam memória, diversidade, adaptação e autonomia.

Mas nenhuma tecnologia se sustenta sem conhecimento circulante. Os intercâmbios entre agricultoras e agricultores, as visitas entre comunidades, as experimentações e a sistematização das experiências permitem que os conhecimentos saiam do isolamento e se transformem em patrimônio coletivo. Quando uma família aprende com outra e um território troca conhecimentos com outro, fortalecem-se os pares, as redes e a capacidade de resposta de toda a agricultura familiar.


3. Ampliar o algodão em consórcios agroecológicos

 

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A experiência do algodão em consórcios agroecológicos, construída há mais de três décadas no Ceará, demonstra na prática que é possível produzir, gerar renda, conservar e preservar a biodiversidade no Semiárido.

Conservar significa manejar e utilizar os bens naturais com responsabilidade, garantindo sua continuidade. Preservar significa proteger aquilo que não precisa ou não pode ser alterado. Uma estratégia agroecológica precisa atuar nessas duas dimensões: manejar sustentavelmente as áreas utilizadas pelas famílias e resguardar a vegetação nativa, os solos, as águas e os ambientes que devem permanecer protegidos.

O algodão em consórcios agroecológicos não representa a volta ao monocultivo. É um sistema diversificado que integra algodão, culturas alimentares e espécies adaptadas, articulando manejo agroecológico, organização comunitária, certificação participativa e comercialização coletiva.

Essa experiência promove inclusão social e produtiva, gera renda, reduz dependências e amplia a capacidade de adaptação dos agroecossistemas. Torna-se ainda mais estratégica diante de um El Niño já configurado e com alta probabilidade de alcançar intensidade muito forte, embora seus efeitos precisem ser observados em cada território. CPTEC/INPE.


4. Investir em educação contextualizada, assessoria técnica e inovação

 

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A agricultura familiar precisa de uma assessoria técnica agroecológica, continuada e construída com as famílias. Não basta levar pacotes tecnológicos ou recomendações prontas. É necessário articular produção, beneficiamento, comercialização, organização, acesso às políticas públicas e tecnologias adequadas ao Semiárido.

Esse processo começa com uma educação contextualizada, capaz de reconhecer a Caatinga, a agricultura, a água, a alimentação, a cultura e a história das comunidades. É preciso superar a educação bancária que engessa os currículos e ainda apresenta o campo como lugar sem conhecimento e sem futuro.

As mulheres devem ocupar o centro desse processo, com autonomia econômica e participação efetiva nos espaços de formação e decisão. As juventudes também precisam de condições para experimentar, inovar e construir seus projetos de vida nos territórios. Tecnologia apropriada é aquela que melhora o manejo, o beneficiamento e a comercialização sem substituir as pessoas nem romper seus vínculos comunitários.


5. Fortalecer a organização social e a participação política

 

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Associações, cooperativas, grupos de mulheres, coletivos de juventudes e redes de economia solidária ampliam o acesso às políticas públicas, permitem compartilhar estruturas e melhoram as condições de beneficiamento e comercialização. Também é necessário compreender e disputar os orçamentos públicos, participar de conselhos, conferências, fóruns e comitês territoriais e dialogar, com autonomia, com mandatos parlamentares comprometidos com a agricultura familiar.

A cartografia social permite que as próprias comunidades reconheçam seus bens, conhecimentos, conflitos e potencialidades. Identificar, sistematizar e divulgar as experiências agroecológicas também é uma ação política: aquilo que não ganha visibilidade corre o risco de não ser reconhecido como conhecimento, resultado e referência para novas políticas públicas. A agricultura familiar não é apenas portadora de uma promessa de futuro. Ela detém, no presente, o poder da resiliência, da adaptação e da transformação necessário para construir esse futuro.

Essa resiliência, porém, não pode servir como justificativa para o abandono do campo ou para a transferência de todas as responsabilidades às famílias. Ela precisa ser acompanhada por políticas públicas, orçamento, infraestrutura, direitos e reconhecimento social. Fortalecer a agricultura familiar é fortalecer uma agricultura que produz alimentos, conserva e preserva a Caatinga, democratiza a renda e responde às urgências climáticas. É construir, a partir dos territórios, um futuro com sustentabilidade, justiça social e equidade entre campo e cidade, mulheres e homens, gerações, povos e comunidades.

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